Entrevista a:Francisco do Vale [arq]
ARQUITETURA
 | Qual é sua especialidade em arquitetura? Sou arquitecto, por isso a minha especialidade é a arquitectura. O que dito desta forma até pode parecer um disparate, uma redundância.
Mas na realidade é uma tomada de posição muito importante. Não concebo a arquitectura dividida em parte isoladas. Não tive essa formação académica nem tão pouco aceito em consciência essa ideia contemporânea.
A arquitectura é mais do que a soma das partes e não deveria ser ensinada e tratada, como actualmente acontece, em partes isoladas com frágeis pontos de conexão. O que provoca graves conflitos e incompreensões profissionais "a posteriori".
Se por comparação, colocarmos esse mesmo problema no âmbito da saúde, facilmente as pessoas perceberão o problema que coloco. Ninguém aceitaria formar ortopedistas, ou qualquer outro especialista médico, sem este estudar "a priori" um tronco comum. Pois por mais especializado que seja o conhecimento assimilado ele deriva de uma só unidade, o corpo humano na sua integralidade, do qual todos os médicos especialistas devem ter conhecimentos. As soluções específicas só podem ser realmente eficazes e úteis se visualizarmos antecipadamente as possíveis implicações destas, no confronto e complementaridade com outras, na generalidade.
Infelizmente hoje a especialização na arquitectura é o ponto de partida e não o ponto de chegada, e isso tem tido terríveis consequências. Isso, claro se nos prepusermos a fazer arquitectura. |
 | Que época histórica da arquitetura mais te fascina? Fascina-me a minha, a nossa, o presente, este preciso momento... É agora que estou vivo, ontem já não existo, e esta existência amanhã é apenas uma probabilidade. E sendo a vida fundamento da obra arquitectónica só o "hoje" pode ser fascinante, contém em si todas as possibilidades impossíveis. Eis o paradoxo que nos eleva.
A nossa tarefa como arquitectos, como Mies Van der Rohe defendeu, é a de criar a forma com a essência do problema e os meios da nossa época, "nem o passado, nem o futuro, só o dia de hoje se pode fixar, só assim a arquitectura se pode realizar". |
 | O nome de um edifício famoso que você não gosta nem um pouco São muitos, demasiados. Incomoda-me imenso a futilidade, a gratuitidade, nesse aspecto não me agrada a obra recente realizada em vários locais do mundo, até por vários arquitectos conhecidos - e com obra de qualidade - como Herzog and de Meuron, OMA, Frank Gehry, etc... E os desastrosos casos como o Dubai.
O formalismo, o "show off", o excesso de desenho e uma determinada preocupação ecológica falaciosa, atingiram em força esta área, construindo-se objectos contra-natura em relação aos propósitos que se infligem a si próprio.
Veja-se o caso do recente espaço cultural realizado em Tenerife da autoria da dupla Herzog & De Meuron; em plena zona costeira o edifício surge com um acabamento cinza escuro, o que tem óbvias implicações no controlo ambiental do edifício, visto que a cor assim o condiciona.
Parece-me que há uma excessiva abstracção na arquitectura actual; o que, como meditação, é algo fundamental no processo racional que se segue para chegar a arquitectura é também, perigoso como fim em si mesmo. |
 | Que hardware ou software você usa como ferramentas imprescindíveis em seu trabalho? Autocad e principalmente Photoshop na manipulação de fotografias.
Contudo, na minha forma de pensar a Arquitectura, continua a ser imprescindível o trabalho manual.
Não creio que haja ainda uma ferramenta computacional que substitua com total eficácia o estudo das formas através do desenho a mão livre - no local - e a realização de maquetas. |
 | Em que cidade você mora ou trabalha? Por quê? Vivo na cidade do Porto, em Portugal, uma cidade milenar do noroeste peninsular. Uma cidade que nasceu encrostada nas encostas íngremes sobre o rio Douro e se desenvolveu simultaneamente em direcção ao interior – por uma topografia estável - e a costa atlântica.
Não sou natural desta cidade, nasci em Paris e vivi e cresci no Minho, no extremo norte de Portugal. Estudei artes em Braga, contudo desde cedo o Porto me fascinou; é uma cidade única – tal como Lisboa mas em pólos opostos -, que facilmente invade o imaginário de um Português. Não só pela visão quase onírica do seu casario sobre o rio, que se esfuma em direcção ao mar, mas também por toda a sua história rica em resistências e lutas por nobres causas.
Uns a odeiam outros a amam, mas para mim tem tudo aquilo que adoro. Luz, mar, rio, variedade, história, espontaneidade das gentes. Uma qualidade de vida que se situa ente o rural e o cosmopolita, entre o espontâneo e o planeado, algo difícil de perceber e explicar sem viver aqui.
Quando vim estudar arquitectura nesta cidade, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, num edifício desenhado por Álvaro Siza Vieira, esse sentimento de pertença enraizou-se em mim.
É uma cidade difícil, mas facilmente se torna um vício. |
 | Você trabalha com outros arquitetos? Como se formou a equipe? Actualmente trabalho, ou tento trabalhar entre esta crise económica, individualmente como profissional liberal, mas claro sempre em colaboração com outros profissionais. Algo muito difícil nos nossos dias, em que os clientes escasseiam e pressionam os prazos de entrega dos projectos ao limite do intolerável. Em Portugal a situação é ainda mais grave, porque o acto de fazer arquitectura não é um direito exclusivo dos arquitectos.
Já trabalhei, no entanto, para uma grande empresa de arquitectura e engenharia que realizava, e realiza, essencialmente arquitectura "empresarial", projectos direccionados para serviços e na sua maioria realizados para Angola, para um mercado de luxo. paradoxalmente existente no seio de uma pobreza extrema.
Posso dizer que já trabalhei nos pólos opostos do trabalho de um arquitecto, cada um com os seus pontos positivos e negativos, mas com certeza prefiro a angústia da obra arquitectónica fruto de um trabalho mais individual e menos empresarial. A "mercantilização" da arquitectura facilmente a corrompe falhando logo qualquer possibilidade de chegar a arquitectura; trabalhando como profissional profissional também posso falhar facilmente a esse intento, mas em paz.
A arquitectura, como diz Paulo Mendes da Rocha, é uma constante fuga ao desastre eminente. "temos antes de tudo de lutar contra as resistências e a possibilidade de degenerar". |
 | O que você pensa dos concursos? Para que tipo de concursos você costuma se apresentar? Creio que são um mal necessário, apesar de muitos estarem corrompidos e em muitos outros não se assegurar a real qualidade arquitectónica de uma intervenção.
Normalmente os prazos são ridículos e as obrigações exigidas muito complexas e difíceis de cumprir para um jovem arquitecto.
Em Portugal existem os polémicos concursos de concepção-construção-manutenção, aos quais obviamente apenas grandes empresas de construção podem participar. É um modo legal de afastar os arquitectos da arquitectura, pois obviamente um arquitecto apenas projecta, cria ideias, e não tem capacidade individual para se candidatar a estes concursos que movimentam milhões de euros. |
 | Que arquitetos você admira: históricos e contemporâneos? Admiro a obra de Álvaro Siza Vieira, desde sempre, simplesmente sublime em todos os aspectos. É quase poesia, tal como a de Eduardo Souto Moura.
Actualmente acompanho e aprecio muito a obra, e o modo de trabalhar, de arquitectos como Smijan Radic, Alexander Brodsky, Valério Olgiati, Aires Mateus e Peter Zumthor. Revejo-me nesta forma de fazer arquitectura para além do mero formalismo; ao contrário do pseudo-experimentalismo contemporâneo, esta surge enraizada no pensamento.
Da arquitecta histórica, para além do classicismo e da arquitectura mesopotâmica, aprecio particularmente a simplicidade da arquitectura indígena e popular africana. Temos ainda muito a aprender com eles. |
 | Os faraós construíam pirâmides e os banqueiros, arranha-céus. Será a arquitetura sempre um símbolo de poder? Prefiro pensar na arquitectura como expressão máxima do engenho do homem e da natural esperança que persiste em nós, em fazer mais e melhor, em pensar sempre que o futuro será melhor.
Mas, é claro que o poder em si, económico, militar, religioso, politico, é uma constante na história da arquitectura. Subjuga-a, usa-a, monopoliza-a e até a despreza... mas que seria desse poder, e da própria arquitectura, sem a submissão e o medo da morte?
No final o que fica não é o poder, mas sim a ideia de poder. |
 | É possível copiar para ser original? Claro, é essencial copiar em arquitectura. Copiar é o único sentido e caminho para chegar a uma arquitectura eficaz, e isto não é defender o plagio, mas sim ter em consideração tudo aquilo que herdamos. Peneirando o que será útil hoje, agora.
Não se trata de apresentar, como nosso, uma obra alheia, ou imitar servilmente, mas sim de apreender no nosso trabalho a cultura arquitectónica que nos rodeia e nos é útil para evoluir sustentadamente, sem dar um passo maior que a perna.
Porque razão deveria resignar-me a não usar todo o ensinamento acumulado e obra realizada - numa situação concreta favorável para tal obviamente - durante milhares de anos?
Seria auto-flagelação. Se colocássemos essa questão a um cientista, a um filósofo e/ou até mesmo a um cozinheiro, com certeza se indignariam. |
 | Que lema você gostaria de ver escrito na entrada da faculdade de arquitetura? O lema que foi pintado em uma das entradas da Faculdade de Arquitectura do Porto, há vários anos atrás:
"A arquitectura não se ensina"
Obviamente é uma provocação, mas com uma grande dose de realismo... o que é preciso é apreender a arquitectura, e isso implica muitas vezes duvidar daquilo que nos ensinam. Esse é o verdadeiro ensino, "ensinar também a duvidar daquilo que ensinamos". |
 | Que tipo de projeto seria seu sonho nestes momentos? Gostaria de realizar um projecto urbano profundo na minha cidade, o Porto, pelo qual pudéssemos combater a degradação humana e a intolerância, que ainda por cá persiste, tal como um pouco por todo o mundo.
Algo que trouxesse dignidade a existência de todos, no qual pudessem ser realizados espaços dignos para a vida e para o culto da espiritualidade. Há ainda demasiados pedaços de não-cidades dentro das urbes, que apenas fomenta a segregação, a pobreza, a fome, e isto aliado há um grande défice de beleza na vida. Hoje parece ter-se medo de falar em beleza e espiritualidade.
Começaria talvez, como ponto de partida neste caso, em propor um templo de culto dedicado ao homem, livre de religiões e segregações. E simultaneamente resolver o problema da habitação. Na cidade do Porto há muitas pessoas sem casa e demasiadas casas sem gente. É intolerável desviar a nossa acção desse grave problema social.
Falo do Porto, e apenas desta cidade, porque é o local onde vivo e melhor conheço. Compete a todos os arquitectos, localmente agir sobre os problemas globais. E eu, só não poderia conscientemente propor-me a fazer algo que me transcende e não domino. |
 | Seu artista favorito Eis uma pergunta complexa. Não gosto geralmente de abordar nesses termos o acto artístico, isolar um sujeito de uma acção humana precisamente vital, na nossa sociedade, pela sua conectividade e reacção em cadeia. A variedade e o alcance das propostas, teorias e dúvidas expostas no suporte plástico são uma espécie de romance, um livro que temos nas mãos. Se lhe rasgarmos uma página a história pode morrer. Assim sendo sou incapaz de isolar um músico, um pintor, um escultor... mas talvez sim uma obra em concreto.
Direi antes de tudo que não gosto de falar de arte nem de artistas, não gosto de traçar fronteiras. Falemos por isso de Homens e de obras; o filosofo português Agostinho da Silva disse em determinada entrevista que “quando alguma coisa é alguma coisa, deixa logo de ser as outras todas, e isso é uma pena. O que é preciso é ser tudo ao mesmo tempo”. Esse parece-me ser o ponto fulcral.
Hoje buscamos dar nomes a tudo e mais alguma coisa. A mim isso não me interessa, agrada-me sim toda actividade que desde sempre questiona e observa, que não tenta ser nada, para precisamente ser tudo.
O acto artístico é isso, profundamente individual, quase uma resposta visceral a estímulos externos, porventura fruto do profundo isolamento mas em nada individualista.
Há artistas que compreendo mas não aprecio, e esses são tão válidos como aqueles que aprecio e tento compreender. Na génese o despertar da existência é a acção fundamental do Homem, e a todos que o tentaram com êxito a minha admiração.
Que seria de Francis Bacon sem Velasquez? Chillida sem Rodin? António Lopez sem os pedreiros de Madrid? |
 | Que páginas de arquitetura na Internet você freqüenta? Ironicamente, frequento essencialmente sítios online da imprensa escrita, para além dos actuais e imprescindíveis emails e comunidades online, para me manter em contacto com amigos e curiosos. E vejo alguns blogues, poucos, sobre arquitectura, pois a manutenção do meu implica já demasiado tempo.
É curioso que desde que tenho um blogue próprio, frequento menos blogues, contudo há que admitir que são ferramentas essenciais, nos quais circula a melhor arquitectura realizada mundialmente, ao contrário do que se pode encontrar em muitas revistas do mesmo ramo.
Poderei dizer que não mudei os meus hábitos, apenas os desloquei para esta nova ferramenta tecnológica – a Internet. |
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