Entrevista a:Fernanda de Aragão [fernandezias]
ESCREVER
 | Como você começou a escrever? Quem lia para você ao principio? Talvez tenha sido o desafio. Tive dificuldades de alfabetização. Dificuldades com o alfabeto e com as palavras. Sempre comi as sílabas e ainda as como. Eu, gulosa com as letras, tranformava qualquer palavra com mais de três sílabas em outra. Programação em programão. Faço isso até hoje. E releio para achar o sentido. Quase sempre acho que a palavra nova que criei para aquela frase, embora não faça sentido algum, tem mais sentido que a palavra original. É assim que eu escrevo: penso numa palavra, escrevo uma outra que me escapa - um paraíso para os psicanalistas - e então eu volto para ver o sentido que ficou ausente. Encontro e reescrevo de forma com que os outros possam ler sem os meus engasgos. Nem sempre consigo já que sempre há uma palavra que não combina no meio do texto. A origem exata de tanto troca-troca não tenho como saber, resquícios das palavras que consumi nesses anos todos. Embaralharam. Minha mãe sempre leu por mim, e lê até hoje, para me avisar dos tropeços e para rir das minhas letras autofágica que estão longe de uma literatura marginal ou pulp ou algo que o valha. |
 | Qual é seu gênero favorito? Algum link onde possamos ver ou ler algo sobre sua obra recente? |
 | Como é seu processo criativo? O que ocorre antes de se sentar a escrever? O bem-estar. Eu gosto mesmo é de escrever quando estou transbordando alegria. São nestes momentos que posso colocar palavras na linha do pênalti e mandar tiros de ironia em direção ao gol. Situações cotianas e crônicas. Azeitadas e afiadas. Ou tentativas de. Também o incômodo. Não dá para guardar letras diante do instante. E tem momento que não tem jeito, a cadeira está lá, o computador e a necessidade, seja qual for ela. Um trejeito, um prazo ou uma falta do que fazer. |
 | Que tipo de leitura ativa sua vontade de escrever? Se isso for uma regra eu estou perdida. As pessoas, no singular e no plural, ativam minha vontade de escrever. Não sou romântica, não escrevo sobre bichos e florestas, prefiro homens e mulheres. |
 | Em que sapatos você se encontra mais cômodo: primeira pessoa ou terceira pessoa? Há momentos em que o sujeito do texto precisa desaparecer para que surjam outros. Diferentes, inesperados, com a palavra na grande área. Há momentos que não. |
 | Profundamente em sua motivação, para quem você escreve? Não escrevo para mim, como se fosse uma terapia. A força de uma palavra escrita e seu registro só me fazem sentido através do social. Um protesto, uma denúncia (foi com esta motivação que montei o blog Café Docente, hoje rendido). Um incômodo (e tem bastante deles no Jornalirismo). A divulgação das ciências ou das culturas (como é o caso do meu blog Psicanálise Esporte Clube, quando escrevo para o Polegar Opositor ou quando refaço a cidade como editora-chefe do blog Ser-Tão Paulistano). Também as crônicas que escrevo, em primeira pessoa, não são de um mim, nem por mim. A escrita tem que ser um movimento, e ir. |
 | Você se apresenta para concursos? Você recebeu prêmios? Tenho um amigo, um poeta português que em certa ocasião foi o vencedor de um desses prêmios literários que dão bons euros. Quando ele chegou a admitir que só recebeu o prêmio porque certamente os jurados, seus amigos, reconheceram-no pelo texto, desqualificando qualquer possibilidade mais justa para os outros candidatos e maiores detalhes eu não sei; então quando ele isso, é claro que a pulga atrás da orelha começou a coçar. Já li livro vencedor do Jabuti que, honestamente, trouxe-me a mesma pulga. Mas esse é o tipo de coisa que me instiga ao desafio, então tenho participado de prêmios e concursos literários que eu considero interessantes e que, de certa forma, possam me projetar para algum lugar de existência literária, já que, de fato, estamos presos aos títulos e aos julgamentos dos outros, com ou sem prêmios literários. Eu tenho a vantagem, nesta contra-prova ao sistema, de não pertencer às rodinhas do meio, embora isso me pareça ser algo inevitável. Recentemente o telefone tocou, dizendo que meu livro de crônicas ficou em 2º lugar em prêmio concedido pela União Brasielira dos Escritores, a avaliação final disso, ainda não sei. |
 | Você compartilha os rascunhos de suas escrituras com alguém de confiança para ter sua opinião? E de não confiança também. O meio literário é muito temeroso às fraudes e aos plágios. O caminho está tão preso ao ineditismo que, em qualquer lugar pelo qual se vá, existe um alguém dizendo dos direitos autorais. Disso e daquilo outro. Desse jeito parece que o escrito não vai, fica. E eu quero ir entre palavras, letras e linguagem. Também pela voz do tu. |
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[fernandezias] Fernanda de Aragão São Paulo - Brasil
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