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Entrevista a:

Fernanda de Aragão [fernandezias]



ESCREVER
Como você começou a escrever? Quem lia para você ao principio?
Talvez tenha sido o desafio. Tive dificuldades de alfabetização. Dificuldades com o alfabeto e com as palavras. Sempre comi as sílabas e ainda as como. Eu, gulosa com as letras, tranformava qualquer palavra com mais de três sílabas em outra. Programação em programão. Faço isso até hoje. E releio para achar o sentido. Quase sempre acho que a palavra nova que criei para aquela frase, embora não faça sentido algum, tem mais sentido que a palavra original. É assim que eu escrevo: penso numa palavra, escrevo uma outra que me escapa - um paraíso para os psicanalistas - e então eu volto para ver o sentido que ficou ausente. Encontro e reescrevo de forma com que os outros possam ler sem os meus engasgos. Nem sempre consigo já que sempre há uma palavra que não combina no meio do texto. A origem exata de tanto troca-troca não tenho como saber, resquícios das palavras que consumi nesses anos todos. Embaralharam. Minha mãe sempre leu por mim, e lê até hoje, para me avisar dos tropeços e para rir das minhas letras autofágica que estão longe de uma literatura marginal ou pulp ou algo que o valha.
Qual é seu gênero favorito? Algum link onde possamos ver ou ler algo sobre sua obra recente?
Crônicas. Crônicas de Divulgação Científica. Textos de Opinião. Artigos Científicos. Contos. Mais informações em:

http://cincodeoutubro.blogspot.com
http://sertaopaulistano.blogspot.com
http://polegaropositor.com.br
http://jornalirismo.com.br

Outras, no twitter:
http://twitter.com/fernandezias
Como é seu processo criativo? O que ocorre antes de se sentar a escrever?
O bem-estar. Eu gosto mesmo é de escrever quando estou transbordando alegria. São nestes momentos que posso colocar palavras na linha do pênalti e mandar tiros de ironia em direção ao gol. Situações cotianas e crônicas. Azeitadas e afiadas. Ou tentativas de. Também o incômodo. Não dá para guardar letras diante do instante. E tem momento que não tem jeito, a cadeira está lá, o computador e a necessidade, seja qual for ela. Um trejeito, um prazo ou uma falta do que fazer.
Que tipo de leitura ativa sua vontade de escrever?
Se isso for uma regra eu estou perdida. As pessoas, no singular e no plural, ativam minha vontade de escrever. Não sou romântica, não escrevo sobre bichos e florestas, prefiro homens e mulheres.
Em que sapatos você se encontra mais cômodo: primeira pessoa ou terceira pessoa?
Há momentos em que o sujeito do texto precisa desaparecer para que surjam outros. Diferentes, inesperados, com a palavra na grande área. Há momentos que não.
Profundamente em sua motivação, para quem você escreve?
Não escrevo para mim, como se fosse uma terapia. A força de uma palavra escrita e seu registro só me fazem sentido através do social. Um protesto, uma denúncia (foi com esta motivação que montei o blog Café Docente, hoje rendido). Um incômodo (e tem bastante deles no Jornalirismo). A divulgação das ciências ou das culturas (como é o caso do meu blog Psicanálise Esporte Clube, quando escrevo para o Polegar Opositor ou quando refaço a cidade como editora-chefe do blog Ser-Tão Paulistano). Também as crônicas que escrevo, em primeira pessoa, não são de um mim, nem por mim. A escrita tem que ser um movimento, e ir.
Você se apresenta para concursos? Você recebeu prêmios?
Tenho um amigo, um poeta português que em certa ocasião foi o vencedor de um desses prêmios literários que dão bons euros. Quando ele chegou a admitir que só recebeu o prêmio porque certamente os jurados, seus amigos, reconheceram-no pelo texto, desqualificando qualquer possibilidade mais justa para os outros candidatos e maiores detalhes eu não sei; então quando ele isso, é claro que a pulga atrás da orelha começou a coçar. Já li livro vencedor do Jabuti que, honestamente, trouxe-me a mesma pulga. Mas esse é o tipo de coisa que me instiga ao desafio, então tenho participado de prêmios e concursos literários que eu considero interessantes e que, de certa forma, possam me projetar para algum lugar de existência literária, já que, de fato, estamos presos aos títulos e aos julgamentos dos outros, com ou sem prêmios literários. Eu tenho a vantagem, nesta contra-prova ao sistema, de não pertencer às rodinhas do meio, embora isso me pareça ser algo inevitável. Recentemente o telefone tocou, dizendo que meu livro de crônicas ficou em 2º lugar em prêmio concedido pela União Brasielira dos Escritores, a avaliação final disso, ainda não sei.
Você compartilha os rascunhos de suas escrituras com alguém de confiança para ter sua opinião?
E de não confiança também. O meio literário é muito temeroso às fraudes e aos plágios. O caminho está tão preso ao ineditismo que, em qualquer lugar pelo qual se vá, existe um alguém dizendo dos direitos autorais. Disso e daquilo outro. Desse jeito parece que o escrito não vai, fica. E eu quero ir entre palavras, letras e linguagem. Também pela voz do tu.
 

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Fernanda de Aragão
São Paulo - Brasil

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