Entrevista a:Fernando Carneiro [fernandocarneiro]
ARTE
 | O que você faz? Como você se define? Escrevo e faço fotografia. Poderia definir-me como alguém que considera a arte a melhor das abordagens possíveis ao mistério das coisas. |
 | Qual é sua mensagem? Talvez que a angústia humana mesmo que não possa ser plenamente entendida, possa ser mostrada pela arte, eventualmente exorcizada. |
 | Sua biografia em quatro linhas Nasci, fui sempre extremamente curioso. Encontrei os prazeres e misérias do pensamento e da decadência. Mais do que a felicidade ou a infelicidade conta a intensidade. Tenho destruído a minha vida de forma metódica e paciente, ou talvez seja o inverso, sido destruído pela vida. |
 | Você publica seu trabalho na rede? Onde podemos vê-lo? http://olhares.aeiou.pt/brokenbird
http://osmeussuicdios-brokenbird-brokenbird.blogspot.com/
http://www.vertigines.blogspot.com/ |
 | Como nasce uma idéia? O que é para você a inspiração? Eventualmente depois de toda uma preparação consciente e inconsciente. Acredito tanto no estudo como na vida e os dois devem admitir um difícil equilíbrio. Também decerto nas surpresas do inconsciente. |
 | Que papel tem a tecnologia em seu processo criativo? Indubitavelmente a internet tem sido uma possibilidade de informação e divulgação assz vasta. Também de contacto interpessoal. |
 | O que é arte? Digamos que é aquilo a que a filosofia, a ciência e a teologia não conseguem responder, embora a arte participe dos mesmos. A arte não pretende explicar nada, apenas apresentar uma situação, conforme uma sensibilidade tanto individual quanto colectiva. |
 | Em que circunstancias você tem as melhores idéias? Quando não estou demasido miserável ou feliz. |
 | Como você corrobora se uma idéia é boa? Quando sinto os ecos de outros que já a utilizaram muito melhor que eu! |
 | Três idéias criativas que você gostaria que tivessem sido suas. A Teoria da Relatividade
A Psicanálise
A sonata "Ludos Tonalis" de Hindemith |
 | Quando e como você começou a ver você mesmo como artista? Quando fui o suficientemente audaz e ingénuo para pensar que tinha algo de novo a dizer |
 | Por que tantos artistas e criadores têm personalidades voláteis? Porque a arte pode ser um domínio muito absoluto. Existe uma frase de Friedrich Nietzsche que muito bem a define: "Quando olhamos para o abismo, o abismo também olha para nós. Quem luta contra um monstro deve ter cuidado para não se transformar num monstro" |
 | Você se considera pós moderno? Sim, no sentido em que a dissecação do processo artístico assim como a sua perigosa relativização também me interessam. |
 | Como uma obra artística deve ser avaliada? Talvez a melhor resposta seja o tempo que nos conseguimos lembrar da mesma. Tal remete para a noção e importância dos clássicos. |
 | O artista deve se reinventar a cada dia? Sim desde que não ceda a modismos, isto de um ponto de vista ideal. Mas não tem que ser um inovador compulsivo. Nem tudo o que é supostamente novo é interessante ou digno. |
 | Que artistas você admira e de que maneira têm influência em sua obra? Frida Kahlo; Kafka e Lars Von Trier. A primeira por ter conseguido transformar uma intensa dor pessoal, numa dor da condição humana. O segundo pelo enigma entre o excesso racional e irracionalidade. O terceiro pela originalidade da sua obra, e pela sua reflexão intemporal sobre a condição humana. |
 | Qual é sua opinião sobre os subsídios públicos para a arte? Muito necessários. Sem ócio a arte pode transformar-se em ideologia ou subserviência. Desde naturalmente que também não suscitem a citada perversão, o que também é um grande risco. A arte é um serviço público, mesmo que a ignara maioria assim não o entenda. |
 | A arte autêntica é a arte necessária? Sim a arte é sempre necessária, nem que seja a arte menor ou epigonal. Mesmo que leve muito tempo para um cultura entender o ser valor. A arte para aquele que não é metafísico é a última possibilidade de mistério que resta. |
 | Você sofre ao se desprender de uma peça que tenha vendido? Bem no meu caso eu mantenho sempre uma cópia, pois não sou pintor nem escultor. Mas entendo quem sofra. Embora exista uma certa ecologia estética, se devolvermos uma obra ao mundo, lugar último da inspiração. |
 | Ao comprar a obra, estamos mais que nada comprando o artista? Bem no contexto da sociedade capitalista actual, tudo tem um valor monetário. Compete então ao artista distinguir entre vender e vender-se. Mas podem certamente confundir-se, os dois conceitos. |
 | Para a arte não há guia. Como você sabe qual é a próxima coisa a fazer? Nunca sei muito bem. Sei que existem momentos de aparente ruptura. Sei que já não penso e sinto como quando tinha 13 ou 18 anos. Ou pelo menos penso e sinto extensivamente mais. Sem dúvida que a capacidade de auto-análise melhorou, mas também o desespero e o niilismo. Tal permite indetificar melhor determinados ciclos de inspiração e temáticos, também certamente mudou o modo de produção estética, assim como o resultado final. |
 | O que você acha de que grande parte das obras de arte contemporânea que os museus exibem seja de artistas que já faleceram? Significa e ainda bem que não esquecemos o nosso passado. A vanguarda de hoje, será o passado de amanhã. |
 | Que papeis jogam em sua trajetória as figuras de marchante, representante, galerista, e intermediários em geral? Se alguém comprasse o que faço, seriam sem dúvida mais importantes para mim. São as pontes e as tenazes de um mercado, conforme o grau de popularidade de um artista, e a sua necessidade de vender. |
 | Que tipo de encomendas você costuma receber? Até agora apenas a de um texto académico, alguma poesia e prosa também mas estas não foram uma encomenda comercial. |
 | Qual de seus trabalhos é o que você mais gosta? Gosto das últimas poesias que nestes meses de Dezembro e Janeiro de 2009/10 coloquei no blog: "Os meus suicídios". Desejaria que fossem boas, pois o meu gostar aqui tem a ver decisivamente com questões afectivas. |
 | Você coleciona algum objeto? Tinha até recentemente alguma roupa intíma de pretéritas namoradas. Eventualmente livros, músicas e doenças. |
 | Que portais online de arte você freqüenta? Nenhum em particular que me ocorra neste momento. |
 | O que você aconselharia aos iniciantes? Que aproveitem bem o tempo da inocência pois não dura para sempre |
CULTURA
 | O que você tem agora em seu MP3? Os seguintes grupos/solistas/colectâneas musicais: Anjani Thomas; Anos 80 I e II; Chavela Vargas; Del Amitri; Four Tet; Human League; Klaus Nomi; Leonard Cohen; Mata Ratos; Né Ladeiras; Neil Young; Nick Mason; O Melhor do Rock Português 1980-1984; Police; Suzanne Vega; Syd Barret. |
 | Que livros você está lendo neste momento? "A cabeça perdida de Damasceno Monteiro" de António Tabucchi.
"Bluff Your Way in Folk & Jazz", The bluffer's guides, Instant Erudition. |
 | Lugares do mundo que você conheceu ultimamente Marrocos; Ilha de São Miguel nos Açores. |
 | Qual é o filme que você nunca se cansa de voltar a ver? "Bitter Moon" de Roman Polanski |
 | Mac ou PC? Por quê? Ambos. O segundo pelo hábito o primeiro pela descoberta. |
 | O que vem depois da sociedade consumista? Eventualmente o apocalipse, isto sem conotações sobrenaturais. Seja social ou ecológico. |
 | Você considera excessiva a saturação publicitária que há nos meios? Do ponto de vista ideal sim. Mas reconheço que em termos pragmáticos tal resulta das solicitações do mercado que é cada vez mais global. Cabe ao consumidor informar-se e organizar-se, não esquecendo naturalmente as empresas que devem observar um código de ética, o que em ultíma análise resultaria também numa mais valia publicitária. Pelo menos segundo um paradigma democrático que (ainda?) vigora na maior parte das sociedades actuais. O Estado, que deverá ser o somatório da vontade dos cidadãos, deverá estar atento a qualquer perversão, seja pelo exercício pedagógico ou velando pelo cumprimento da lei. |
 | Você acredita que há excessivo sexo e violência nos meios? Talvez. Ainda assim os comportamentos sexuais estão a mudar muito rapidamente, para o qual contribuiu a mentalidade hedonista actual que coloca o indivíduo no centro do mundo. A internet ao facultar contactos múltiplos e sociabilidades também é responsável por tal. A sida, os meios de comunicação social, a abertura a comportamentos sexuais minoritários também são adjuvantes desta tendência, assim como o declínio da família tradicional, onde o antigo papel feminino da geração dos meus pais já não se verifica. A existência de uma identidade adolescente, encorajada pelo consumismo vigente também é cumplíce, secundada por um poder de compra seja em bens de consumo como tecnologia informática que permite levar as possibilidades de comunicação na net ao limite. Tendo em conta o inusitado destes fenómenos devemos antes de julgar, tentar perceber melhor todo este fenómeno complexo. Em particular a sida que já referi, remete em termos de alternativa para a possibilidade de sexo alternativo, nomeadamente o cybersexo, ou mesmo para comportamentos sexuais que transcendem o contacto genital, como as práticas sadomaso, voyeurísticas ou masturbatórias. Indubitavelmente estamos a ficar mais sexualmente criativos ao investir na fantasia, mas talvez mais pobres em relação ao afecto no sentido em que o investimento prioritário é egoístico e sexual. Em oposição a tudo isto existe uma vaga de fundo cada vez mais assumidamente solitária e frustrada que desejaria um regresso ao passado. |
 | Quais eram suas matérias favoritas no colégio? Filosofia; História e Português. |
 | Você acredita que videogames, chats, etc. têm um perigo viciador para adolescentes? Indubitavelmente e já temos vários exemplos científicos, nomeadamente estatísticos. Pois são fortemente sugestivos em termos cénicos ou de comportamentos como a violência e a sexualidade liberta (ou libertina) tão apelativos na adolescência, no caso particular dos jogos. Permitem uma vávula de escape cada vez mais desejada, num mundo perigoso cada vez mais competitivo, instável e complexo. Quanto ao chat, permite criar rapidamente um conjunto de contactos que banalizam o que antes entendíamos por amizade, que estava mais limitada geograficamente. A facilidade destes contactos e da possibilidade de conversar via internet de uma forma fácil e cómoda é indubitalvemente adictiva. Criam-se assim micro sociedades online, que alternativamente interagem e competem em alianças instáveis e altamente mutantes segundo modas. Estes fenómenos reforçam o sentimento de pertença ou antagonismo tão presente e necessário nos mais jovens. |
 | Algum livro de crescimento pessoal transformou sua vida? Nenhum em particular mas a definição é polémica. Talvez "A Montanha Mágica" de Thomas Mann. |
 | Você comprou alguma vez obras de arte? De que tipo? O que te motiva a fazê-lo? Sim nomeadamente esculturas, ou instalações dinâmicas. O facto da arte de uma forma mais subtil que a ciência, ilustrar uma visão do mundo sem necessidade da violência da demonstração. |
 | Marketing, briefing, brainstorming... Você faz algum esforço para evitar os anglicanismos ou os aceita como um fato e pronto? Naturalmente que os aceito. Uma língua é um organismo vivo, não uma múmia. Em termos de cultura erudita haverá sempre alguém que lerá Camões, Pessoa ou Virgílio Ferreira. Uma língua será sempre o que os falantes desejarem, senão é um artefacto fúnebre. |
 | Você defende o grafite urbano? Sim do ponto de vista artístico. Não do ponto de vista do desrespeito pela propriedade privada ou pública. Perante o dilema escolho o segundo princípio. Apelo assim que hajam tolerância e cultura artística e histórica de todas as partes envolvidas. O que seria de nós sem os grafitti de Pompeia? Certamente teríamos um conhecimento mais reduzido do homem comum que é tão importante em história. |
 | Que revistas você lê habitualmente? A "LER (Livros e Leitores)" e "Os meus livros". Ambas de editoras portuguesas. |
 | A pirataria continua aumentando. O que aconteceria com a indústria da música, o cinema, e a cultura em geral? Ganhamos em possibilidade de divulgação e valorização do papel dos artistas perante as editoras, em termos de relação de poder, concretizado no contacto directo com a massa de consumidores. Não deixa de ser naturalmente um roubo que numa fase inicial do fenómeno vai prejudicar substancialmente os artistas e editoras. Curiosamente os direitos de autor são um fenómeno recente, não existindo na Idade Média por exemplo. Já têm sido tomada medidas várias como o caso dos preocessos do Napster e do Pirate Bay. Ou atente-se na recente legislação francesa que responsabiliza o serviço que fornece a internet aos clientes pela advertência a estes e em última análise pela suspensão do serviço, mantendo-se o ônus da assinatura. Já existe naturalmente a possibilidade de fintar informaticamente tal vigilância, que se baseia numa detecção de primeiro nível em métodos de amostragem perante o tempo médio de utilização do cliente. Naturalmente a privacidade deve e tem que ser respeitada. Mas esta situação é nova e o ordenamento jurídico leva tempo a organizar-se e a renovar-se. As partes envolvidas a saber os artistas, o público e as editoras devem dialogar. Em termos de Direito verifica-se o problema da uniformização do Direito nacional com o internacional, federal ou no contexto de organizações super nacionais como a UE ou o Mercosul |
 | Que esportes você pratica e com que freqüência? Fumar, comer, escrever |
 | O cinema deve ser subsidiado quando no elenco há estrelas milhonárias? O cinema deve ser apoiado em função do seu valor estético ou cívico. Cada caso é um caso. É perfeitamente possível que uma estrela milionária seja actor num filme independentemente dos honorários se se identificar com este, seja pela causa ou estética. O Estado deve apoiar tais iniciativas segundo os critérios referidos exercendo assim o seu papel pedagógico, ainda que deva observar também critérios orçamentais naturalmente. |
 | Como você explica o auge da cultura da fama? Pela multiplicidade da tecnologia de divulgação e sofisticação crescente do Marketing e das diversas potencialidades crescentemente inovadoras que do ponto de vista técnico possibilitam, nomeadamente no caso do cinema enquanto obra multimédia, um grau de sofisticação apelativa nunca visto. Pela vida trágica do homem vulgar que necessita de escapes e figuras de fácil indentificação, no contexto de uma cultura de globalização e normatividade que gera mitos democráticos em relação à estética, ao saber, poder, etc. Curiosamente tal fenómeno também se estende ao último em sentido inverso. Atente-se em programas do tipo "Big Brother" ou "Ídolos", e a sua discutível oferta de "15 minutos de fama". Fama esta sádica e autofágica perante os epigonais concorrentes e as massas ávidas de novidades, que adoram abater os seus pretéritos ídolos. Os exemplos estão aí, mais cruéis a cada dia que passa. Se me permitem a "blague" sobrenatural, considerando um eventual regresso de Cristo, este seria crucificado em directo? |
 | Recomende-nos um restaurante e um lugar dos que você freqüenta em sua cidade para tomar algo de noite Em Lisboa destacaria o restaurante "Novo Bonsai" na Rua da Rosa no Bairro Alto. Pela decoração e eficiência discreta e silenciosa do seu pessoal. Para "um copo" recomendo o "Old Vic". Pela decoração vitoriana, pela simpatia do gerente e pessoal e pelo volume dos bifes. Aberto até muito tarde, fica nas traseiras do "Hotel Roma". |
 | O que você tem agora em sua carteira? Nada. |
 | Sua forma de passar o tempo? Flirtar na internet, televisão e leitura em banho de imersão são as minhas actividades mais recorrentes. |
 | Em que cidade você mora? O que você mais e menos gosta dela? Lisboa. O que gosto mais é a sua história e o que gosto menos é a onda crescente de consumismo e mau gosto dos seus habitantes. |
 | Um vídeo do YouTube com algo que foi significativo em sua vida http://www.youtube.com/watch?v=7b9ZA7Q9a70
Pela simplicidade e pelo dramatismo claustrofóbico. Também pelo sentido de humor no final e pelo facto de ser uma pessoa marginal. |
 | Que você tem pensado fazer em suas próximas férias? Ganhar dinheiro! |
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722 visitas Whohub [fernandocarneiro] Fernando Carneiro Lisboa
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