Entrevista a:Marcelo Sousa [im78]
ESCREVER
 | Como você começou a escrever? Quem lia para você ao principio? Meus pais foram os grandes incentivadores, mas o processo foi sempre muito íntimo. Eu ganhava livros como quem ganha um brinquedo, e daí em diante o "brincar" era tarefa minha, coisa solitária.
Meu primeiro livro, aos 11 anos de idade, foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, que me atraiu muito pelo título e depois pela ironia voraz do texto de Machado de Assis. Aquilo me marcou muito, e quando o lí pela segunda vez, anos mais tarde, descobrí as sutilezas que havia perdido antes, e fiquei apaixonado pelo poder das palavras, e principalmente pelo poder daquilo que está "no vão das palavras". Entende?
Começei a escrever naturalmente, talvez por um ímpeto criativo inato, uma forma de registrar em palavras as minhas vivências diárias, fazendo uma crônica da vida atual e uma crônica pessoal. Machado foi meu primeiro mestre, seguido por Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Guimarães Rosa e García Marquez, que me fascinavam pela letra voraz, pelas palavras novas e inauditas, pelo mundo novo de coisas que estava à mão mas que eu nunca havia pensado em dar-lhes um nome. Era como se muitas coisas estivessem me sendo apresentadas no momento em que eu lía sobre elas.
Assim começou minha saga com as letras. |
 | Qual é seu gênero favorito? Algum link onde possamos ver ou ler algo sobre sua obra recente? Gosto muito do realismo fantástico, e da poesia. Mas leio de tudo, compulsivamente, e escrevo sobre tudo também. E agora com o advento do Twitter, acho que tenho me tornado mais cronista ou jornalista, a conferir em @MarceloSousa.
E existe uma comunidade num website de relacionamentos... coisa muito tímida, mas que me dá muito prazer: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=1308163. (...)
E por fim, o blog que mantenho no Wordpress, onde tento aliar poesia e fotografia, ensaios e crônicas do dia-a-dia: http://im78.wordpress.com/.
Ficarei feliz em ter sua visita por lá! |
 | Como é seu processo criativo? O que ocorre antes de se sentar a escrever? Meu processo criativo é quase sempre doloroso.
Escrevo sobre vivências particulares e preciso de técnica e paciência para proteger aqueles assuntos ou pessoas que não gostariam ou não podem ser descobertos em prosa e verso.
Meus fantasmas flutuam ao redor da minha poesia, mas poucas pessoas chegam a perceber o que há por baixo dos seus brancos lençóis. |
 | Que tipo de leitura ativa sua vontade de escrever? Leio e releio os clássicos várias vezes. Tenho dificuldades com novidades, porque acho que na literatura está acontecendo o mesmo que aconteceu nas artes plásticas, com uma banalização da palavra e uma forma de escrita que tem deixado de lado a técnica, debruçando-se demais no território do "experimental", que deixa tudo ininteligível. E o pior é que quando um crítico não entende a poesia dessa gente, ele não diz, por medo de ser taxado de retrógrado, saudosista, ignorante, ou coisa parecida. Por isso volto sempre aos bons, e acredito que depois de Waly Salomão não há nada de novo e experimental que seja minimamente palatável.
Para escrever, me inspiro nisso, os clássicos, os canônicos, mas também sou muito movido pelos acontecimentos do dia, pela vida em seu sentido mais cru. E tudo isso regado a um bom vinho e ao sempiterno chocolate meio-amargo. |
 | Quais são para você os ingredientes básicos de uma historia? Toda história precisa de um motivo, um estopim. E é no caminho dessa pólvora que as idéias vão seguindo. Pode não haver uma explosão no final, mas só a excitação do caminho pode valer a jornada. |
 | Em que sapatos você se encontra mais cômodo: primeira pessoa ou terceira pessoa? Em ambos, dependendo da situação. |
 | Que escritores conhecidos são os que você mais admira? Sempre leio e releio João Guimarães Rosa, José Saramago, Gabriel Garcia Marquez, João Ubaldo Ribeiro, Edgar Allan Poe, Cees Nootebom, Graciliano Ramos, Dostoiévsky, Platão, Sócrates, Maquiavel, entre outros.
Não tenho preconceito quanto aos modernos, mas há tanta coisa para ler sobre os clássicos que não posso escapar deles antes de começar a ler as novidades que estão por aí, até porque é tudo muito cíclico, o pensamento se repete, a poesia segue por caminhos tortuosos mas sempre volta ao mesmo lugar. |
 | O que torna um personagem crível? Como você cria os seus? No meu processo criativo costumo fazer um processo inverso. Meus personagens são todos reais ( e por isso críveis ) mas por meio de muito exercício trato de torná-los menos reconhecíveis, menos reais, por isso fantásticos ou incríveis, e esta é a chave da minha poesia. |
 | Você é igualmente hábil contando historias oralmente? Creio que não. Minha expressão escrita é dolorosa, requer introspecção. Acho que não seria um bom contador de histórias no sentido oral. Mas ainda assim noto uma musicalidade interessante em alguns poemas, o que me faz pensar que seriam muito propícios à música, caso fossem alinhados como tal. |
 | Profundamente em sua motivação, para quem você escreve? É uma pergunta difícil e instigante.
Não creio que esteja pensando diretamente em uma pessoa no momento da escrita, mas é claro que todos aqueles que participam direta ou indiretamente da minha poesia são meus convivas, meus semelhantes, amigos ou inimigos, de quem assimilo as vozes e transcrevo em verso e prosa.
O amor ( ou o desamor ) é uma temática constante, por isso o envolvimento íntimo é o maior motor da minha obra, e por isso pessoas amadas ( ou odiadas ) acabam recebendo maior destaque. É a eles, em última análise, que devo minha obra. |
 | Escreve como terapia pessoal? Os conflitos internos são uma força criadora? Todo escritor procura na palavra alguma espécie de redenção, ou uma forma de dizer ao mundo tudo aquilo que nunca diria com a própria voz. É como o palhaço, que no palco domina multidões com seu sorriso, mas nas ruas, andando como simples mortal, pode ser um homem triste, apagado, apenas mais um no meio de tantos outros homens em busca do seu destino.
E claramente a maior força criadora é o conflito, o desconforto. Não falo apenas das coisas ruins, mas também dos bons combates, daquela inquietação sorridente que nos assombra em frente a um relâmpago, um sorriso de criança, uma borboleta furtiva, um gesto curioso de uma pessoa desconhecida. Conflitos positivos e negativos são o alimento da criatividade, não há dúvida. |
 | O feedback dos leitores serve pra você? Muito, muito mesmo! A reação do leitor é um prazer eterno, e não importa se é um gesto de reprovação ou aprovação. A crítica é sempre boa para o artista. É por meio dela que podemos saber onde está o exagero, ou onde falta a força. E muitas vezes uma característica negativa é lançada de propósito, para causar desconforto ou espanto. E se esse espanto não acontece, sabemos que a obra não chegou ao seu destino final, precisa ser revista, precisa de mais força. É assim que o poeta aprende a domar as palavras, a encontrar nelas os sabores escondidos, o mel mais nobre que só se encontra no fundo da colméia, a pimenta mais forte que precisa ficar anos enterrada, escondida, curtindo, assimilando sabores e experiências, como um vinho na cave... |
 | Você se apresenta para concursos? Você recebeu prêmios? No início da minha carreira participei de um concurso literário promovido por um conhecido jornal carioca, com a participação da ABL. Pois bem, inscreví-me, enviei meus escritos, e ( surpresa ) vencí o concurso. Então fui convidado a ir até a redação do jornal para conceder uma entrevista. A entrevista foi dada, fotos foram tiradas... mas após dois dias recebí outra ligação, dessa vez do próprio redator do jornal, explicando-me que minha vitória não era válida por que eu não era um professor de literatura nem um acadêmico da área, nem havia escrito livro algum antes... e esse era o perfil dos participantes do concurso. O homem ofereceu-me um "prêmio de consolação", que eu prontamente recusei, e daquele dia em diante decidí abster-me desses concursos.
No momento prefiro o "feedback" dos leitores nas minhas páginas virtuais. Já obtive avaliações de escritores influentes, que foram gentis e até elogiaram minha poesia. E nos meios acadêmicos recebo críticas positivas, em sua maioria.
Mas ainda acredito que a pureza da resposta do leitor no mundo digital é algo impressionantemente forte, verdadeiro, que nos dá a exata medida do poder criativo e/ou destrutivo da nossa obra. |
 | Você compartilha os rascunhos de suas escrituras com alguém de confiança para ter sua opinião? Não mesmo, porque meu processo é muito veloz. Na maioria das vezes não chego a fazer um rascunho. Sigo escrevendo e montando a estrutura do poema já na página de edição do texto na internet, e quando julgo que está finalizado o trabalho é hora de publicá-lo imediatamente. Por isso costumo dizer que meus poemas são como flechas, uma vez lançados, não há como chamá-los de volta ou arrepender-se do lance dado. Só mes resta torcer para acertar o alvo, ou chegar perto dele. |
 | Você acredita ter encontrado "sua voz" ou isso é algo eternamente buscado? Acredito que eu tenha descoberto que possuo muitas vozes, e que cada uma delas quer se manifestar em um determinado momento.
Poesia, Ensaios, Fotografia, Música, Teatro, Cinema... são os veículos que mais me instigam, que mais interessam à minha arte. São recursos que uso para manifestar a minha voz, que muitas vezes não cabe em uma única forma de expressão.
Meu trabalho como ator me faz muito bem. Também existe a fotografia, que é mais que um hobby, é um vício mesmo. E no final das contas tudo isso é acumulado e colocado no mesmo caldeirão, onde o escritor ( como um alquimista ) vai resgatar aquilo que interessa e deixar de lado a ganga impura. |
 | Que disciplina você se impõe para horários, metas, etc.? Nenhuma! Tenho problemas com seguir ordens e horários. Isso acontece com tudo na minha vida, e já me trouxe muitos problemas, mas também me trouxe um diferencial interessante.
Fico dias sem dormir. Acordo no meio da noite e começo a escrever, vou cozinhar, passear com meu cachorro, ler um livro, ou simplesmente ficar na cama pensando, pensando, pensando...
Não tenho um método, nem metas. Sei que isso parece inconsequente, mas eu focalizo resultados a serem perseguidos, mas não um caminho único e imutável para chegar a eles.
O labirinto é o meu caminho. Linhas retas me deixam tonto! Rs rs rs... |
 | De que você se rodeia em seu escritório para favorecer sua concentração? Vinho e chocolates são meus "parceiros" habituais! |
 | Você escreve na tela, imprime com freqüência, corrige em papel...? Como é seu processo? Minha geração acostumou-se à digitar tudo na tela, editar textos e publicá-los na internet ou enviar por email. É uma geração de gente muito impaciente, muito desfocada, uma vez que está sempre fazendo tudo ao mesmo tempo. Tento fugir disso na medida do possível, mas não me coloco à margem do que me é natural, da minha contemporaneidade. Escrevo diretamente na tela, vou corrigindo por lá mesmo... e quando julgo que está tudo terminado eu publico na mesma hora. |
 | Que sites você freqüenta online para compartilhar experiências ou informação? Mantenho atualizada uma comunidade com o meu nome no Orkut, e tenho uma página no Wordpress. E costumo passear por diversos blogs, lendo coisas interessantes ou nem tanto, e observando as tendências dos meus contemporâneos. |
 | Como foi sua experiência com editoras? Tive relação com um editor que estava muito interessado na minha obra, mas após um tempo ambos nos decepcionamos, por que as expectativas eram diferentes. Mas não tenho problemas com editoras. Acredito que concessões podem e devem ser feitas em prol da arte, até que se tenha um nível de autonomia suficiente para escrever e publicar aquilo que quiser. |
 | Em que projeto você está trabalhando agora? Trabalho em mil coisas diferentes ao mesmo tempo. Preciso manter meu emprego formal, minha rotina de terno-e-gravata... mas preciso de tempo para criar, olhar o mundo, contemplar as pessoas e seus modos, e levar tudo isso comigo para formar o artista, o solitário personagem que chamo de "Eu, O Breve."
Estou cuidando da minha página no Wordpress, onde coloco meus poemas. E paralelamente tenho exercitado muito a fotografia, trabalhando com luzes e texturas, e estudando formas de edição e outras coisas.
O teatro é uma paixão, mas que tem sido deixada em segundo plano. Mas está entre as minhas prioridades para os próximos dois anos, após a publicação do meu livro. |
 | O que você me recomenda fazer com todos esses textos que venho escrevendo há anos mas nunca os mostrei a ninguém? Um blog é a melhor forma de expressar-se e obter algum feedback sobre aquilo que você escreve. É um instrumento fabuloso, em tempo real, e que acolhe a todos democraticamente. |
|
828 visitas Whohub [im78] Marcelo Sousa Rio de Janeiro - RJ, Brasil
|
|
| Liceck Ariza | |
|
|
| Flávia Fontes | |
|