Entrevista a:Christiano Piccioni Toralles [kicotoralles]
ARQUITETURA
 | Qual é sua especialidade em arquitetura? Com uma formação recente (graduado em agosto de 2008), é difícil ainda definir uma especialidade, visto que, muitas vezes as oportunidades que surgem tem um papel maior em talhar isso, ao invés do gosto/propensão pessoal. Academicamente, desenvolvi em paralelo com a graduação - através de bolsas de pesquisa e extensão - e, inclusive, no TFG, trabalhos de Planejamento Urbano. Atualmente estou cursando mestrado, desenvolvendo pesquisa na área modelagem urbana para planejamento urbano; além disso, conclui especialização na área de gestão de cidades.
Profissionalmente, foram poucas as oportunidades de elaborar estudos nessa área (resumindo-se a RCA/PCA e EIV). Unindo as oportunidades no âmbito da arquitetura predial com a propensão para as questões urbanas, definiria que minha especialidade tende a morar na conexão do construído com o não construído, do público com o privado, na preocupação com a melhor inserção dos objetos arquitetônicos (ou não) com seu entorno (edilício, paisagístico, patrimonial, ambiental, etc).
Atualmente curso mestrado na linha de pesquisa de Sistemas Configuracionais Urbanos, trabalhando softwares simuladores de crescimento da cidade, sob a ótica da morfologia e modelagem urbana.
[resposta dada em 2011] |
 | Alguma página web ou blog onde possamos ver algo sobre seu trabalho? http://kicotoralles.blogspot.com/ |
 | Que época histórica da arquitetura mais te fascina? Em termos de movimento, de discussão e de rompimento, me fascinam os séculos XIX e XX. Das proposições urbanísticas dos 1800, motivadas pelas consequências da Revolução Industrial, ao Modernismo, mesmo não gostando de muito da sua estilistica e não concordando com sua urbanística. Ou seja, das cidades jardins à Brasília, passando por Gaudí e Niemeyer, sem esquecer Christofer Alexander e outros pesquisadores urbanos. Desse período, o arquiteto (e obra) que mais me influencia é Barragán e seu "minimalismo colorido". Dos períodos anteriores a esse, respeito muito e me encantam as regras de composição clássicas, as proporções, as relações entre as partes. Algo hipnotizante e encantador quando se analisa um prédio histórico. Dos contemporâneos, me encanta a ousadia, principalmente de Calatrava, embora ainda falte uma "cara" nesse período.
[resposta dada em 2009] |
 | O nome de um edifício famoso que você não gosta nem um pouco A título de exemplo, não gosto da arquitetura feita por Frank Gehry (embora tenha me agradado o uso dos tons de vinho na obra de Marquês de Riscal, em La Rioja). Também não me agrada a capela de Notre-Dame-du-Haut, em Ronchamps, de Le Corbusier.
[resposta dada em 2009] |
 | Que hardware ou software você usa como ferramentas imprescindíveis em seu trabalho? Atualmente, os softwares AutoCad, SketchUp, Google Earth, ArcView e Corel (Draw e PhotoPaint) são ferramentas quase imprescindíveis. E sem esquecer a Internet, que além de aproximar os canais de comunicação/divulgação, é uma biblioteca para pesquisas de modelos referenciais, especificações, fornecedores, etc. Sabendo triar, a Internet é uma ótima revolução que surgiu para arquitetura.
[resposta dada em 2009] |
 | Em que cidade você mora ou trabalha? Por quê? Vivo em Pelotas, RS. É onde se situa minha instituição de ensino, onde me graduei e onde atualmente curso mestrado.
Também atuo na cidade do Rio Grande, RS. É minha cidade natal, onde vive a maior parte da minha família e amigos.
[resposta dada em 2010] |
 | Você trabalha com outros arquitetos? Como se formou a equipe? Enquanto equipe, ainda não tive a oportunidade. Mas espero tê-la, pois acredito que o trabalho coletivo engrandece um projeto. Sem menosprezar, lógico, a assinatura individual, que também traz muito aprendizado e desenvolvimento, quando se dá a "cara a tapa". Ainda assim, de certa forma, já atuei com alguns engenheiros civis e agrícolas, seja para os projetos complementares (elétrico, hidrossanitário, estrutural), seja para parte topográfica e de licensiamento ambiental, seja para parte de arborização. E, além disso, já executei alguns pequenos serviços complementares para auxílio de colegas arquitetos, sem definir co-autoria.
[resposta dada em 2009] |
 | O que você pensa dos concursos? Para que tipo de concursos você costuma se apresentar? Nunca participei de nenhum. Há quem diga que concursos são meios de ter projetos praticamente de graça e/ou um jogo onde já se sabe previamente o vencedor. Mas, olhando pelo lado positivo, penso que concursos são uma boa maneira de se propor projetos, normalmente de grande escala, onde se pode usar a criatividade de maneira mais livre e, mesmo não vencendo, fica o projeto para o portifólio.
Além dos concursos de projetos, existem também os concursos públicos para trabalhar no setor público. Desse tipo de concurso, já prestei várias provas, seja para cargos técnicos ou para docente, mas ainda não consegui aprovação em nenhum.
[resposta dada em 2009] |
 | Que arquitetos você admira: históricos e contemporâneos? Admiro muito dois espanhóis: Gaudí e Calatrava. Também gosto muito do paisagismo de Burle Marx (não foi arquiteto de formação). Me encanta visitar ou ver em fotos/desenhos os projetos dos latino-americanos, como, por exemplo, Rogelio Salmona, Eladio Dieste (também não foi arquiteto de formação), Solano Benitez e Sebastian Irarrazaval. Mas minha predileção é pelos mexicanos, principalmente Barragán e Legorreta. Principalmente desses últimos procuro tirar algumas fontes de inspiração para meus projetos.
[resposta dada em 2009] |
 | Em sua filosofia profissional, o que vem antes: a função ou a forma? Sem ser hipócrita comigo mesmo, na roda viva do dia-dia, a função vem antes e a forma deriva dela. Mas disso podem resultar obras sem valor. Daí surgem as adaptações, o talhar na pedra, pra buscar a forma agradável na função desejada. E, em alguns casos, a forma pode aparecer primeiro, por exemplo, numa intenção do objeto arquitetônico como discurso. Mas a forma antes da função pode ser só casca, envelope, o que não é bom. O ideal é buscar sempre que ambas coexistam no ato de projetar. No desenho urbano me parece mais simples aliar as duas coisas ao mesmo tempo, o que no arquitetônico - inclusive pelas pretensões dos clientes - seja mais engessado na função como primeiro ato.
[resposta dada em 2009] |
 | Urbanismo horizontal ou vertical? Horizontal. Me agrada mais na paisagem urbana. Mas sou ciente dos impactos ambientais da necessidade de uma maior área para expansões. Ainda acredito em estratégias de planejamento/projetuais que minimizem esse impacto, pensando em grandes áreas verdes, ações sustentáveis, mobilidade urbana, etc. E, além do trabalho do urbanista, é necessária uma política de controle de natalidade, para que se diminua a necessidade de expansões e possa se trabalhar em revitalizações de cascos urbanos existentes e vazios urbanos, seja com renovação ou com reciclagem do já construído.
O mais importante é a mistura de usos (segregar apenas quando incompatíveis, caso das indústrias poluidoras de grande porte), que dê vida às cidades e faça as pessoas circular, se apropriar das cidades. E, lógico, quanto menos carros melhor.
[resposta dada em 2011] |
 | Como será uma casa unifamiliar em 2050? Creio que terá mudanças sim, mas nada tão grande, nenhum enorme rompimento com o morar atual. O andar atual da carruagem já me faz imaginar alguns rumos: eficiência energética, sistemas bioclimáticos e sustentabilidade. A automação, ao menos no nosso terceiro mundo, tende a demorar para chegar e espero que demore mesmo e, se possível, nem chegue. Já nos basta o Big Brother urbano e o paradoxo da "liberdade vigiada" que estamos vivendo e não desejo ver a arquitetura se transformando em robótica e os usuários achando-se operadores, mas na verdade sendo meros fantoches da tecnologia. A tecnologia é bem vinda, desde que nos permita dominá-la e não ser dominados por ela. De resto, imagino que os mais ricos e poderosos continuarão tendo suas mansões e os mais pobres tendo seus cubículos cada vez menores.
[resposta dada em 2009] |
 | Que novos materiais geram maior interesse pra você? Gosto dos materiais tradicionais: tijolo, cerâmica, madeira, pedra, concreto, vidro, ferro, etc. Mas tenho buscado, quando possível, me interessar por materiais que tragam leveza (no sentido de peso, de cargas) e em técnicas/materiais que tragam interação com a natureza e sejam sustentáveis, como, por exemplo, coberturas verdes.
[resposta dada em 2009] |
 | Arquitetura bioclimática, sistemas domóticos... se aproxima uma revolução profunda na arquitetura? Creio que essa revolução virá sim (embora não concorde com o termo revolução para esse caso). Mas ela não sepultará a arquitetura que não seguí-la de imediato. Preciso aprender muito mais sobre o assunto, que ainda engatinho. Sem ideologias, utopias e tecnicismos, esse viés bioclimático é bem vindo.
[resposta dada em 2009] |
 | No desenvolvimento de um projeto, você se sente mais próximo a seus clientes, ou do publico que há de usá-lo? A arquitetura enquanto arte nos faz autores de nossas obras e, se só seguirmos as exigências do cliente, viramos apenas desenhistas. Tento aliar sempre as necessidades e possíveis formas de apropriação dos usuários com o toque pessoal, com o idealismo do "eu autor". Isso se o cliente for o próprio usuário, mas quando o cliente não é (seja empreendedor, incorporador, órgão público, etc) fica mais complexo. Não a complexidade de buscar se aproximar dos usuários, mas de ter que também tentar atender alguns possíveis desejos dos clientes que não serão usuários. Jogo de cintura é imprescindível para negociar, pois nessas horas precisamos ser políticos.
[resposta dada em 2009] |
 | Os faraós construíam pirâmides e os banqueiros, arranha-céus. Será a arquitetura sempre um símbolo de poder? Não, a arquitetura não é símbolo de poder, mas pode ser usada para tal. A arquitetura é símbolo da fusão da arte com a técnica, com a cultura, com a essência do usuário, com a relação com o meio, etc. Como símbolo de poder ela pode ser usada e, às vezes, é mal usada como, por exemplo, em obras "compra votos", mas outras vezes é muito bem usada, como, por exemplo, deixa legado social, cultural, educacional, ambiental, etc.
[resposta dada em 2009] |
 | É possível copiar para ser original? Como diria Chacrinha, parodiando Lavoisier: "nada se cria, tudo se copia". Copiar, ipsis literis, é plágio, isso é errado, despresível e deve ser evitado e denunciado. Se inspirar, ter influências e até copiar algum detalhe é saudável. Pegar uma idéia de alguém, um outro arquiteto como modelo de referência, e alterá-la, para a nova situação de um novo projeto, pode vir a auxiliar na evolução dessa técnica, estilo, linguagem, etc e dar originalidade sim. E muitas vezes acabamos copiando, inclusive, nós mesmos e essa nossa auto-cópia é que nos leva a criar um estilo próprio.
[resposta dada em 2009] |
 | Que lema você gostaria de ver escrito na entrada da faculdade de arquitetura? Essa é ótima: "O importante é a vida e não a arquitetura". (Oscar Niemeyer)
[resposta dada em 2009] |
 | Que tipo de projeto seria seu sonho nestes momentos? Meu sonho de infância é projetar uma cidade, ou, no mínimo, um bairro. Lógico que com liberdade projetual.
[resposta dada em 2009] |
 | Seu artista favorito Difícil responder um nome só, pois a arte se manifesta através de formas de expressão diferentes. Podemos pensar nas belas artes (música, pintura, escultura, arquitetura, poesia e teatro), nas dissidências (gravura, caricatura, quadrinhos, tatoo, graffiti, literatura (desde que não técnica, essa eu desconsidero arte), dança, urbanismo, paisagismo e jardinagem, etc), na sétima arte (cinema). Podemos pensar ainda no design, na moda, na publicidade, na fotografia, na cinematografia, na culinária (considero arte sim), etc. E, pensando na dança, porque não pensar também nos artistas do esporte?
Difícil resposta... tem tantos excelentes trabalhos que desconheço o nome do autor(a)(s), mas tentarei citar alguns que estou lembrando no momento:
- arquitetura/paisagismo: Barragán, Gaudí, Burle Marx, Calatrava;
- música/poesia: Beatles, Bob Dylan, Chico Buarque, Humberto Gessinger, Cazuza, Los Hermanos, Jorge Drexler;
- literatura/poesia: Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Agatha Christie;
- cinema: Tim Burton;
- artes visuais: Andy Warhol, Vik Muniz;
[resposta dada em 2009] |
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