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Entrevista a:

Nelson Barbosa Jr. [nelbjr] 


EDUCAÇÃO
Que matérias você ensina? Que tipo de alunos você tem?
Engenharia de Software; Projeto de Sistemas; Análise Estruturada de Sistemas; Análise Essencial de Sistemas; Análise Orientada a Objetos; Lógica Matemática; Lógica de Programação; Circuítos Lógicos; Eletrônica e Eletrotécnica; Redes de Computadores; Segurança de Redes de Computadores e Comunicações; Teoria Geral de Sistemas; Teoria Geral de Administração; Sistemas de Informação Gerencial
Algum link onde possamos ver que você faz ou o centro onde você trabalha?
www.usp.br www.unip.br www.tempaisqueecego.blogspot.com
Que experiências do passado o levaram a dedicar-se a isto? Como se despertou em você a vocação educadora?
Meu interesse sempre foi o de apresentar, ensinar e elevar o desenvolvimento do raciocínio seja ele lógico, matemático, histórico ou cultural; pessoal ou profissional. É uma forma de liberar mentes embotadas em treinamentos robotizados onde se utilizam de instruções mecânicas e sem nenhuma aplicação prática destes ensinamentos. É uma forma, também, de instigar o desenvolvimento de soluções dedutivas e de aspectos inferenciais.
Que mestre ou mestra foi mais influente em você, e por quê?
Foram vários, porém, aqueles que mais me marcaram não tiveram o intuito primordial de apresentar ou incutir os conceitos pré-definidos de um livro, manual ou uma apostila, mas sim, expor fatos e conhecimentos gerais (sem prejuízo dos técnicos) que pude utilizar tanto em minha vida profissional, como em todas as minhas relações pessoais.
Como você definiria sua filosofia docente?
Como eu já disse, prefiro incentivar a criação, cada vez maior de conexões neurológicas (sinapse) na mente em meus alunos do que simplesmente transferir-lhes discursos que podem ser encontrados em qualquer um dos livros indicados nas extensas bibliografias de cada curso..
Que aspecto da profissão representa um maior desafio para você?
Lidar, cada vez mais, com uma população de jovens adultos, nada igualitária, com diferenças gritantes, tanto econômica, sociais e culturais, sem contar as religiosas, inclusive, com vários aspectos divergentes de disciplina doméstica. Lidar com essas diferenças e tentar formar um só corpo é algo que me absorve e me inebria, porém, me dá um prazer imenso quando atinjo esse objetivo.
Que tipo de relação você estabelece com seus alunos/as?
Tento liderar através da persuasão técnica, porém, apresento-me como um ser igual, que não é senhor de toda verdade, que comete erros e sabe reconhecê-los e que, apesar de tudo isso, conseguiu um estar em um degrau do “estado da arte” na forma de transmitir os ensinamentos adquiridos, testados e vivenciados. Nunca me utilizei da liderança imposta ou de qualquer outra forma de poder autocrático. Qualquer imposição ou obrigação, por definição, não deve ser uma coisa boa, caso contrário, não precisaria ser obrigatório.
Qual é o segredo para infundir curiosidade pelo conhecimento?
Não ter a aula ou a matéria como um fim em si mesmo. Aspectos técnicos desconhecidos já são maçantes por natureza. Trazer o mundo do ouvinte para a sala de aula e, dentro de seus parâmetros de conhecimento e vivências, procurar exemplificar como isso pode lhe ser útil no seu dia-a-dia, seja esse presente, passado ou futuro. Conceitos sem exemplificação prática não são retidos, e quando são, ficam perdidos em alguma lacuna cerebral e nunca mais serão encontrados. Aspectos gerais, técnicos e/ou culturais devem compor toda a aula e, relacionar-se como um todo. Todos os envolvidos devem estar na mesma vibração mental e, para isso, técnicas de pedagogia, lapidadas com a psicologia devem compor todo o quadro. Digo sempre que, ser professor, é mais difícil do que ser um ator de tablado, pois esse, ensaia e apresenta sua peça, todos os dias para um público variável, que pode ser mais ou menos receptivo, porém, a cada dia, novos ouvintes estão ao seu alcance. Já um professor, possui sempre a mesma platéia, todos os dias e falando, por partes, sobre o mesmo assunto.
Qual é seu critério a respeito de pôr tarefas para a casa e sobre pontuação?
Não concordo e nem acredito na eficácia de “tarefas para o lar”. Isso, a meu ver, é mais uma forma de punição. Como eu já disse, nada do que se é obrigado a fazer pode ser uma coisa boa. As tarefas não precisariam existir se o aluno, por vontade própria, se dispusesse a treinar e aprimorar seus conhecimentos fora do ambiente de sala de aula. Ele só fará isso se o que lhe foi transmitido e, principalmente, da forma como foi transmitido lhe incentivar a curiosidade e vontade de aprofundar seus conhecimentos. De outra maneira, o objetivo deste ato somente incentivara a mecanização do raciocínio o que, repetindo, não acho nada aconselhável. Com relação aos pontos, acho que esses devem ser aplicados em tarefas desenvolvidas em classe, onde podem ser acompanhadas, direcionadas e orientadas.
É possível ensinar/aprender criatividade? Como?
É possível aprender a raciocinar? Eu tento ensinar isso! Acredito que tudo é possível, o que importa é o método, a paciência, o interesse e foco no objetivo. Criatividade nada mais é do que o raciocínio unido com o conhecimento, e esse conhecimento, é amplo e irrestrito, desenvolvido desde o berço, ou, parafraseando Freud, até antes. Incentivar os alunos a descobrirem novas ferramentas para um problema conhecido ou, usar ferramentas conhecidas para um problema desconhecido é uma forma de criar sinapse. Assim, criam-se novas visões sobre um mesmo assunto. Caminhos diferentes levam a técnicas diferentes.
Como você se faz respeitar na aula? O que você faz quando surge um problema de disciplina?
Como já disse, não me coloco em nenhum patamar diferenciado. Sou um integrante da aula como todos os alunos o são. Minha primeira atitude é deixar claro que todos possuem liberdade para exprimir seus contentamentos ou descontentamentos. Existem muitas formas de se negociar em uma classe, porém, em nenhuma delas o objetivo da aula pode ser esquecido. Se o papel do aluno está claro e foi aceito espontaneamente por ele, não há como fazer concessões. O ato de se portar respeitosamente em uma sala de aula é uma regra básica e que, tacitamente, foi aceita, tanto pelos alunos como pelos professores. É claro que existe indisciplina em uma sala de aula, porém, devemos ter em mente que faz parte também da formação do ser humano ocupar espaços vazios ou, conquistar espaços que não estão muito bem definidos. Vale lembrar aos alunos que todo ato traz conseqüências, algumas boas, outras ruins, porém, em uma aula interessante, movimentada e com a participação de todos, mesmos aqueles que possuem outros objetivos, dificilmente encontrarão espaço para se manifestarem e, se o fizerem, serão contidos pelo próprio grupo. Mas, às vezes, nada disso adianta, então usamos da psicologia e, cada caso é um caso. Às vezes a exposição daquele que deseja aparecer, ou que domina determinado grupo resolve o problema. Às vezes temos que identificar e trazer os líderes para o nosso lado. Vez por outra, identificamos problemas transferênciais (que por sinal é extremamente comum entre professor(a) e aluno(a), porém, a maioria não causa tantos problemas disciplinares, pois atuam mais na parte afetiva). Tentativas de sedução, libertinagem explícita, indisciplina congênita ou adquirida, devem ser contidas e tratadas individualmente, se possível, de forma particular e sem exposição. Se nada disso adiantar, recorremos às normas da instituição, porém, somente em último caso. É certo que essa última opção é a mais rápida e parece menos onerosa para o professor, porém, lembremos que dessa forma, poderemos perder um grande ser humano, que na verdade precisa somente de alguns pequenos ajustes. Em resumo, tenho uma técnica básica própria. Eu trabalho com rédia curta em alguns momentos e, às vezes, quando necessário (independente da situação), dou liberdade quando acho interessante (também, independente da situação). Agindo assim, não corro o risco de arrebentar a corda por estar muito tensionada e, nem de perder o controle com muita liberalidade. Como eu disse, cada caso é um caso e depende muito das circustâncias e da conjuntura apresentada.
Como você individualiza o ensino? Como você lida com os diferentes níveis dos estudantes de uma mesma aula?
Isso é uma tarefa complicada, porém, é possível elevar o grau dos alunos menos preparados e, paralelamente, propor que os mais habilidosos auxiliem seus colegas. Quando um aluno requer instruções mais avançadas e o nível da classe não permite, trago-o como auxiliar e faço seu preparo individualmente, indicando-lhe literatura ou trabalhos técnicos onde ele poderá aprimorar seus conhecimentos. Em contra partida, procuro incentivar àqueles menos agraciados a alcançarem o mesmo nível de excelência. Essa é uma técnica que pode ser utilizada nos dois vieses. Caso a classe tenha um nível elevado, o foco de acompanhamento externo deverá ser feito para os menos agraciados.
Que significa para você aprendizado colaborativo? Como o põe em prática?
Acho que foi respondido na questão anterior!
O que você espera de seus supervisores? Que qualidades você valoriza na pessoa que dirige o centro?
O supervisor deve ser sempre um professor com larga experiência e atuação docente, porém, com uma excelente penetração na alta gerência, pois assim, poderá ser o elo entre a administração e o corpo docente. É certo que a visão e os objetivos administrativos muitas vezes não são compatíveis com as atividades docentes, assim, um supervisor que conheça as necessidades docentes e tenha essa vivência, poderá se interpor ou, melhor, auxiliar o corpo dirigente afim de se encontrar uma mediana entre essas atividades nada correlatas. De outra forma, um profissional experiente, provavelmente, já vivenciou vários problemas da função docente e pode orientar seu grupo quanto a melhor maneira de minimizar problemas e atingir objetivos.
Que assuntos a debate sobre ensino são de maior interesse para você?
Administração e psicologia do ensino.
Seria bom que os professores tivessem incentivo econômico em função dos resultados escolares de seus alunos?
Seria louvável, porém, a priori, deveriam ser discutidos métodos eficientes de avaliação de resultados e determinar regras precisas de qual é verdadeiramente papel da escola nos dias de hoje.
Além de mais recursos, que falta nas escolas de nosso tempo?
Não acho que haja falta de recursos. Na minha opinião, os recursos existem, o problema é que eles são mal administrados. Rios de dinheiro são jogados fora e outros, embolsados por pessoas inescrupulosas. Pouco disso é realmente aplicado em educação e afins. As escolas estão carentes de bons profissionais. Não que isso seja culpa delas, é que bons profissionais são formados por outros bons profissionais e isso, há muito, deixou de ser valorizado, principalmente no ensino básico e médio. Se a base é ruim, o resultado será de mesmo nível ou pior. A valorização e formação de competência do profissional de ensino deve ser foco de investimento de todas as sociedades, porém, hoje, o bom professor é aquele que, ou tem amor à função de transmitir conhecimentos e, para isso, dedicou sua vocação para estudos e aprimoramento e por expensas próprias ou, teve a sorte de ser conduzido por profissionais gabaritados e, assim, desenvolveu-se brilhantemente neste sentido (fato cada vez mais raro), mas a realidade é outra. O que vemos no dia-a-dia, são professores com grande vontade, mas totalmente despreparados e, professores preparados, mas sem vontade nenhuma. Uma nação que se preze deveria investir mais naqueles que formaram a base da economia. Reconhecimento emérito é bom mesmo “pós-mortem”, aqui, nesta vida, o melhor é o reconhecimento financeiro. Isso sim atrairá melhores professores que, por sua vez, formarão outros professores gabaritados e assim, sucessivamente.
Como é a tecnologia que você utiliza habitualmente nas aulas?
Estranho! Sou professor de tecnologia avançada e o que eu gosto mesmo é de giz e lousa. Por formação, não sou e nem posso ser contra a tecnologia, porém, acho que ela afasta o profissional do seu objetivo. Utilizo-me de toda tecnologia disponível hoje em dia para preparar minhas aulas e atualizar meus conhecimentos. Tenho até aulas preparadas no meu celular e, algumas, no PSP, porém, o que eu gosto mesmo é de estar em contato com os alunos de giz na mão. Uma aula muito formatada e estritamente delineada perde muito do seu objeto, na minha visão, principalmente, seu romantismo e se, no meio do caminho for necessário inverter ou alterar todo o processo programado, quem se utiliza somente de tecnologia não terá como se adaptar. Já, no meu caso, com giz e lousa posso viajar para qualquer lugar e me adaptar àquilo que os meus ouvintes estão preparados ou dispostos a ouvir e aprender.
Em frente às novas tecnologias, há que reinventar a escola, seus métodos e objetivos?
Com certeza! Se a tecnologia é algo sem volta, os parâmetros atuais estão errados. Não se pode pensar em utilizar-se de tecnologias atuais em um modelo antigo de ensino. O modelo antigo não se adapta as novas tecnologias e, nem as novas tecnologias se adaptam ao modelo antigo de ensino. Quem ignorar isso vai continuar errando. Porém, a quebra de paradigma deve ser tentada. As aulas deverão mudar. O local, a forma, a metodologia, tudo deverá ser diferente. As aulas “via internet” são de uma mau gosto e de um despreparo indescritível, melhor ler um livro! Não há interação, nem ente professores e alunos e, muito menos, aluno-professor. Se é para utilizar-se do poder da tecnologia, temos que desconstruir o modelo arcaico de ensino e pensar em algo novo. Há muitos anos tive a idéia de implementação de um ensino interativo com novas tecnologias, baseando-me na metodologia dos “vídeo-games”. Porém fui taxado de louco. Talvez agora, com um avanço tecnológico dos “doutos” na matéria, seja hora de propor novamente essa idéia.
Se você pudesse criar uma escola ideal, como seria?
Desculpe-me, mas eu sou muito romântico para dar essa opinião! Para mim, escola de verdade eram as cátedras. Eu adoraria ter vivido nessa época. Mas ainda acho possível reviver o mesmo espírito, mesmo que para isso, tenhamos que estar à milhas de distância um do outro. Acho muito importante o contato pessoal entre alunos-alunos e alunos-professores, mas, a cada dia, isso se torna mais problemático nos grandes centros, onde o tempo é curto e as distâncias longas. Talvez não tenhamos opção e, o contato proposto seja o mesmo utilizado por sítios de relacionamentos ou servidores de bate-papo, ou seja, totalmente virtual.
Como você imagina que será uma escola daqui a 20 anos?
Fria, sem interação pessoal e, principalmente, sem emoção! Pois o contato físico e emocional não poderá ser levado pelas linhas digitais, mesmo pensando-se no aprimoramento das TV´s Digitais e/ou comunicação por vídeo. Porém, é o futuro e isso não afetará somente o ensino, já está afetando o trabalho e a tendência é continuar, até que um novo paradigma seja descoberto ou, que possamos futuramente sentir o cheiro, o gosto e as emoções dos outros “via internet”. Não quero só pedir uma pizza “via internet”, que aproveitar e comê-la “via-internet”, senão, que graça terá?
Quais são suas metas pessoais? O que você gostaria de estar fazendo daqui a cinco anos?
Gostaria de estar fazendo as mesmas coisas que faço hoje, de uma forma melhor. E, comendo minha pizza “via-internet”, sentindo cheiro e o gosto, com todas as sensações degustativas que me for de direito e, o melhor de tudo, sem engordar, pois acho que zeros e uns não possuem calorias. Bom, até o momento não, quem sabe no futuro?
Que qualidades você deve em alguém para aconselhar-lhe a dedicar-se ao ensino?
Em primeiro lugar, curiosidade! Você nunca será um bom professor se não for curioso e, em segundo, resignação. O resto, é como disse Thomas Edison, 10% inspiração e 90% transpiração!
 

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