Entrevista a:Fábio Prudente [fprudente]
EDUCAÇÃO
 | Que matérias você ensina? Que tipo de alunos você tem? Leciono disciplinas na área de Sistemas Digitais: Eletrônica Digital, Microcontroladores... para alunos dos cursos de nível médio em Eletrônica e Eletrotécnica, no IFS. |
 | Algum link onde possamos ver que você faz ou o centro onde você trabalha? |
 | Que experiências do passado o levaram a dedicar-se a isto? Como se despertou em você a vocação educadora? Na metade final do curso de Engenharia Elétrica, eu já sabia que meu interesse estava mais focado na compreensão dos conceitos, modelos e analogias, que na atividade típica da engenharia. Mas o insight definitivo veio com a leitura do livro "A Evolução da Física", de Albert Einstein e Leopold Infeld. Esse livro me mostrou que transmitir conhecimento para as novas gerações é tão importante quanto gerar novos conhecimentos. |
 | Que mestre ou mestra foi mais influente em você, e por quê? Tive alguns mestres influentes:
Profs. Joarez e Anikó Vrubel, no curso técnico de Eletrônica (ETFSE), pelo comportamento ético e paixão pelo magistério.
Prof. Ivan Aciolli, no curso de EE (UFPB - Campina Grande), pela sua magia em transformar qualquer coisa em conceitos simples. |
 | Como você definiria sua filosofia docente? Não posso ensinar nada. Posso apenas ajudar o estudante a descobrir as coisas, se ele quiser. |
 | Que tipo de relação você estabelece com seus alunos/as? Todas. Amor, ódio, amizade, terrorismo, estímulo, pressão, orientação, desorientação...
Cada aluno é único, então não há um único método de ensino, nem uma única forma de se relacionar com eles. |
 | Qual é o segredo para infundir curiosidade pelo conhecimento? Não há fórmula mágica. Para alguns, será impossível, para outros, basta uma única citação ou comentário. O segredo é tentar de todas as formas, e não tentar agradar a todos, ao mesmo tempo. |
 | É possível ensinar/aprender criatividade? Como? Na faixa etária com que trabalho, sinto que é muito difícil. A escola básica faz um excelente trabalho em eliminar toda a criatividade que a criança possui. Quando chega ao ensino médio, a lavagem cerebral já é quase irreversível.
É impossível ENSINAR criatividade, no formato da escola tradicional: sala de aula, carteiras enfileiradas com professor à frente ditando lições.
É possível ESTIMULAR a criatividade, com atividades interativas e construtivas, orientadas pelo professor, mas praticadas e executadas por cada aluno. |
 | Como você se faz respeitar na aula? O que você faz quando surge um problema de disciplina? Não é diferente de se fazer respeitar no trabalho, na sociedade, ou em qualquer outro lugar. Respeito não se impõe, se conquista. Além disso, respeito é um conceito universal, compreendido instintivamente, não apenas por seres humanos.
O respeito vem como consequência de sua postura, seus atos, sua coerência. Em minhas aulas, gosto sempre de dizer que devemos nos divertir nas coisas sérias, e levar a sério as diversões. Cabe ao professor administrar esses momentos.
É claro que isso também depende do ambiente, e do contexto. Trabalho em uma escola tranquila, e nunca tive problemas com isso. Quando a instituição é predominantemente formada por pessoas que não se fazem respeitar, a situação fica complicada, fora de controle. Nessa situação, não há muito o que fazer. |
 | Como você individualiza o ensino? Como você lida com os diferentes níveis dos estudantes de uma mesma aula? Trabalho com educação profissionalizante, então deixo claro que, independente de sua origem, condição, nível, etc, ao final do curso, todos devem atender a certos requisitos mínimos.
Não trabalho com esse conceito de "aprendizagem relativa". Isso é enrolação. O profissional será avaliado por critérios absolutos. Um profissional que não atinja os requisitos mínimos pode colocar em risco a sua vida, ou a de terceiros.
Cabe a cada aluno se esforçar para atingir os requisitos. Minha função é ajudá-los nessa tarefa. |
 | Seria bom que os professores tivessem incentivo econômico em função dos resultados escolares de seus alunos? Seria bom que os professores fossem vocacionados para o ensino. Uma remuneração atrativa ajuda a aumentar a procura pela profissão e, em tese, a selecionar melhores professores.
Uma remuneração variável, baseada diretamente nos resultados escolares dos alunos pode levar à corrupção, e a uma deterioração ainda maior do sistema. |
 | Além de mais recursos, que falta nas escolas de nosso tempo? Trabalho em uma instituição (IFS) com computadores e laboratórios relativamente bem equipados. Data-shows não estão presentes em todas as salas, mas são acessíveis. Não faltam recursos. Falta somente bom-senso.
A escola tem que entender que, com crescimento exponencial da informação e do conhecimento, é impossível "ensinar" todos os "conteúdos". As escolas de nosso tempo ainda se fundamentam nos princípios da escola clássica, cujo objetivo era ofertar uma educação erudita, para os filhos da aristocracia.
A escola moderna tem que se reinventar. Sua nova missão é abrir as portas de acesso ao conhecimento (não apenas ensiná-lo, da forma tradicional), para todos os cidadãos (não apenas para alguns), com o objetivo de despertar, em cada um, seu potencial. Para isso, tem que se libertar do apego aos conteúdos clássicos, e estimular a capacidade de buscar informações, elaborar modelos próprios, e solucionar problemas concretos. |
 | Se você pudesse criar uma escola ideal, como seria? Seria um grande centro de eventos e oficinas. Haveria espaços para apresentações artísticas e oficinas de artes; exposições científicas e oficinas de ciências; videotecas com documentários, e equipamentos para criação de vídeos; salas de leitura, e recursos para edição de textos... tudo com horários, programação, acompanhamento e disciplina, mas sem obrigatoriedade.
O aluno estaria livre para perambular por cada ambiente, e "degustar" cada atividade. Os eventos serviriam para a degustação, para tocar a alma do aluno. As oficinas funcionariam como porta de entrada para o aluno que foi fisgado por um evento, e tenha tido o interesse em se envolver com aquela atividade.
Mas a aprendizagem não é somente lúdica. Seja qual for a área, seu domínio depende de muita disciplina, dedicação e esforço. Após encantar-se com as exibições, de divertir-se com as oficinas, é hora de suar a camisa, e estudar duro para seguir uma sequência de disciplinas, e aprofundar-se naquela área. O estímulo, para enfrentar a dureza do estudo, é o desafio.
Por fim, o educador não pode ser o avaliador. As avaliações, necessárias em qualquer processo, devem ser conduzidas pela instituição, de forma impessoal. Quando a avaliação é feita pelo professor, cria-se uma confusão de conceitos. Subliminarmente, o aluno passa a tentar reproduzir aquilo que o professor deseja ouvir, e o professor passa a tentar formatar o aluno, enfatizando aquilo que ele irá avaliar. Somente quando o avaliador é alheio ao processo educativo, pode-se avaliar com neutralidade. |
 | Como você imagina que será uma escola daqui a 20 anos? Exatamente igual à escola de 200 anos atrás... |
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