Entrevista a:Roberto Axe [robertoaxe]
ESCREVER
 | Como você começou a escrever? Quem lia para você ao principio? Bem, comecei a escrever tarde; se é que se pode dizer isso em Literatura. Acho que escrevemos quando não cabemos mais em nós mesmos; foi o que aconteceu comigo. Na verdade, creio que escritores remoem por muito tempo as idéias que lhes ocorrem e por muitas vezes acham que tudo não passa de uma grande bobagem. Depois de um tempo, amadurecem e vêem que 'bobagem' é não por para fora o que, a essa altura, lhes devora as entranhas. No meu caso, essa pressão jorrou dando à luz quatro livros - pum! - de uma vez só! Sendo que um publiquei na Internet - A Filosofia do Diabo - e os outros três, possivelmente, deverão ser publicados por uma editora de Porto Alegre. Assim mesmo, tenho a intenção de disponibilizar mais um na Rede, afinal, a experiência foi boa[mais de 40.000 leituras] com meu primeiro livro. Ah, sim, quem lia para mim a princípio... Ninguém. Acho que a voz que mais escutei foi a de meu inconsciente dizendo: - Deixa de ser preguiçoso e lê! - Acho que foi assim que começou. Agora, realmente, são sei onde vai parar! Que bom! |
 | Como é seu processo criativo? O que ocorre antes de se sentar a escrever? Qualquer acontecimento pode desencadear o processo criativo: um pingo d'água, a imagem de alguém na TV, um copo de vinho, um barulho na rua, o latido de um cão, e por aí vai... basta que deixemos abertas as torneirinhas do inconsciente. Lembrando que essas 'torneirinhas' são amorais, não conhecem 'Bem' ou 'Mal', se colarmos rótulos fechamos as torneiras. Pode aparecer de tudo, inclusive uma boa história, basta que fiquemos atentos. Sou todo ouvidos ao que vem dos recônditos mais profundos de minha mente, que é inquieta e não conhece limites no quesito 'pensar'. Mesmo um bom personagem pode surgir de qualquer evento cotidiano e banal... tudo que vemos fala, desde que possamos escutar e sentir com a imaginação. |
 | Que tipo de leitura ativa sua vontade de escrever? Henry Miller |
 | Em que sapatos você se encontra mais cômodo: primeira pessoa ou terceira pessoa? Nos sapatos da terceira pessoa, que é quem usa sapatos; até porque tiramos os sapatos para escrever, aliás, sapatos, calças... enfim, tudo! Todo escritor escreve nu, por mais roupas que esteja usando. Bem, pelo menos deveria. Escrevendo na terceira pessoa podemos colorir melhor a história, porém, atrás dela estaremos sempre nus. Criei uma máxima que exprime bem isso: 'Escritor é alguém cuja nudez se pode espiar por entre as letras..." não importa quantas 'terceiras pessoas' existam no enredo, no fundo o autor estará sempre nu. |
 | O que torna um personagem crível? Como você cria os seus? Taí um negócio subjetivo. O que torna um personagem crível? Gregor Samsa, - A Metamorfose, de Kafka - para mim, é crível. Outros, em outros romances menos votados, de tão banais - os personagens - não são críveis. É crível um personagem quando nos toca, nos comunica, nos incita, e isso vai de cada um. De minha parte crio meus personagens para conduzirem, com suas mais variadas personalidades, a história que estou contando, e são histórias com condimentos kafkianos. Existem pessoas normais e outras nem tanto, existem situações normais e outras nem tanto, e existem também coisas bizarras, pois estamos falando de Literatura. Tudo que é muito linear me cansa: personagens oníssonos, situações previsíveis, pieguice, e o "deus ex machina" que se anuncia já na metade de um livro. Acho que prefiro os personagens 'incríveis' aos 'críveis'. |
 | Você é igualmente hábil contando historias oralmente? É o que dizem... Na verdade tenho até que cuidar para não descambar para a mais deslavada mentira! Hehe... o 'vício' de quem escreve é inventar histórias, ou se preferir, estórias. É bem verdade que às vezes nossa imaginação encarrega-se de 'arredondar' a história que estamos contando, pois é impossível tolher-lhes as asas. Mas o prazer de contar histórias faz parte do ofício! Mesmo as coisas mais horripilantes que contamos, se conseguirem chocar alguém, deixar pessoas com olhos estalados e medrosos, é sinal de que estamos no caminho certo. Se conseguimos influenciar nossa platéia com nossa força oral, como era na antiguidade, estamos prontos para inventar mentiras de papel. |
 | Profundamente em sua motivação, para quem você escreve? Acho que escrevo para 'o leitor(a) desconhecido(a)', que pode ser eu mesmo, sei lá... Sei é que quando escrevemos queremos que alguém leia [como se estivéssemos em uma pequena ilha e jogássemos ao mar uma garrafa com um bilhete dentro dizendo 'tem alguém aí?eu estou aqui!'] e que seja de alguma maneira tocado pelo texto. Alguém que compartilhe a mesma metáfora, a mesma visão de mundo. Do contrário é onanismo intelectual - ou poético - que serve também, mas como catarse, não como voz de artista. |
 | Escreve como terapia pessoal? Os conflitos internos são uma força criadora? Os conflitos internos são grandes geradores de força criativa, se tivermos propensão para a Arte. Acho que quando escrevemos ou realizamos outra manifestação artística o fazemos para salvarmo-nos de nós mesmos. Somos algo intrincado, confuso, estranho, e a Arte é a vazão aceita pela Sociedade [ainda bem!] para extravasarmos um pouco da perigosa bomba atômica que mora em nosso interior. Penso que o impulso criador é como uma ejaculação colorida de algo que já não cabe mais em nós e precisa de ar! |
 | Você compartilha os rascunhos de suas escrituras com alguém de confiança para ter sua opinião? Não. A única vez que deixei meterem o bedelho o negócio ficou uma porcaria. Respeito muito as opiniões, mas depois do trabalho pronto, aí sim, pode descer o cacete, - se for o caso - sem problemas. Não escrevo para concordarem comigo, escrevo porque preciso me expressar e quando começam a botar, ou melhor, apontar minhocas no meu texto, eu digo que sem as 'minhocas' a história não funcionaria. Tive uma namorada que lia o que eu estava escrevendo - enquanto eu dormia - e encasquetou com uma personagem feminina de um livro. Na verdade ela achava que a tal personagem era inspirada nela, e não gostou nada do que leu. De minha parte nunca havia me passado pela cabeça montar um personagem tendo ela como base, mas graças à sua xeretice arrumei um rolo pra mim. Então imaginem ficar pedindo opiniões; é óbvio que cada um puxa a sardinha para sua brasa. Tenho um amigo que diz que todo livro que não tem um final feliz não merece ser lido. Certa vez ele me pediu que lhe recomendasse um autor e eu disparei sem piedade: "Esopo". Ora, o que seria da Literatura se tudo sempre terminasse 'bem'? pois a tendência de quem dá palpites em textos em formação quase sempre é de puxar para sua zona de conforto, esquecendo que o autor pode estar querendo justamente o contrário. Respeito quem submete seus textos à análise dos outros, mas comigo, realmente, não funciona. |
 | Você acredita ter encontrado "sua voz" ou isso é algo eternamente buscado? Resposta enigmática: encontrei 'minha voz' para eternamente buscá-la... |
 | Que disciplina você se impõe para horários, metas, etc.? Nenhuma. Quando tenho uma ideia na cabeça vou em frente até terminá-la. Não tem horário. A única meta que me imponho é a de fazer um bom trabalho; de conseguir dizer o que quero dizer, de forma clara, objetiva, embora travestida - a ideia - de uma grande 'metáfora' que é o romance, propriamente dito. |
 | De que você se rodeia em seu escritório para favorecer sua concentração? De demônios e fantasmas! Que dancem alegres, feito ciganas, ao redor da grande fogueira da minha imaginação! Uma boa música pode ajudar. Que venham duendes, egipãs; os sátiros e as ninfas; dançam silvanos, piam corujas, lua cheia, uivo de lobo! Lá vem Dionísio e seu ditirambo! deus do desregramento e da criação! Dança tudo na floresta do pensamento, no mar das idéias; é o vinho do pensar, do criar, concentração é coisa solar! É noite! o negócio é desconcentrar... para criar... |
 | Você escreve na tela, imprime com freqüência, corrige em papel...? Como é seu processo? É simples. Escrevo e corrijo tudo na tela, embora às vezes imprima alguma coisa para ver a criança "encarnada" no papel. Parece que no papel o texto adquire um ar mais 'oficial', mais 'sério' ou coisa parecida. Duvido que um escritor de Internet não queira ver seu trabalho no papel, tocar, cheirar... quando o pegamos na mão parece que o texto agradece, tal qual um bebê que queira ir para o colo do pai. É bonito de ver. Penso que o papel ainda exerce um fascínio muito grande no autor, parece papo de século XIX, mas quem escreve sabe o que estou dizendo. Portando, mesmo escrevendo na tela, é bom 'cheirar' o texto de vez em quando, hehe... |
 | O que você me recomenda fazer com todos esses textos que venho escrevendo há anos mas nunca os mostrei a ninguém? Recomendo o Scribd. Lá você pode postar poemas, contos, romances, crônicas, frases, etc., enfim, o que for do gosto do freguês. Acho que o advento da Internet ajudou muito quem quer publicar e existem muitos sites para quem quer dar a cara a bater. Digo cara a bater porque quem escreve há anos e não mostra para ninguém talvez o faça com medo de críticas, ou por achar que seu trabalho pode ser ruim. Mas chega uma hora que é preciso apresentar os filhos ao Mundo, então... mãos à obra! Outros sites bons são: Clube de Autores [livros], Bookess[livros], República dos Autores, Webartigos, Autores,Texto Livre, Myebook[livros], Bubok[livros], e outros que estou esquecendo. Agora, se quiser despender uma graninha e arriscar um pouco mais, então existe o Mesa do Editor, que cobra uma anuidade [ou por seis meses, não lembro] e seu livro [eletrônico] fica à disposição para análise de editoras [de vários países] cadastradas no Site. Enfim, tudo conspira, hoje, para que manuscritos saiam das gavetas; é claro que nada disso garante a contratação por uma editora, mas demonstra, isso sim, que nós autores não estamos esperando sentados um contrato cair do céu. Boa sorte! É o que eu tenho a dizer. |
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